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Renato Russo - O Filho da Revolução

Renato Russo - O Filho da Revolução
Iniciei o ano com uma leitura regida de história e contexto, em tons suaves, ou nem tanto, que me deu outra visão sobre a música brasileira, principalmente sobre as bandas de rock nacional, minhas prediletas. Não que eu não goste, ou tão pouco me emocione com a MPB, que além do rock, é o único estilo que consigo ouvir, mas pautado na história e com um gosto tão cru, mergulhar nessa leitura me fez enxergar sentidos que até então não conhecia.

A Legião é a banda da minha adolescência, juntamente com Capital (coincidência?) e talvez por isso eu senti tanta expressividade no livro. Quando conheci Renato Russo, eu tinha meus nove anos, mas me lembro com clareza do fatídico 11 de outubro de 1996 e parte de minha história foi escrita regida ao som do poeta. 

Confesso que lendo essas páginas eu perdi um pouco o sentido de representatividade. No fundo, Renato era o boysinho da cidade e não o João de Santo Cristo. Nascido em família de classe média, seus conceitos foram baseados em experiências alheias. Morou nos Estados Unidos, estudou inglês a vida toda e a vida toda em colégio particular, entende, não me vejo mais ali. 

Por outro lado, mesmo com todo privilégio, Renato viveu durante a ditadura, lado a lado com generais, na cidade piloto. Não consigo descrever tal experiência, já que a ditadura me causa um misto de medo e de um sentimento sombrio que não ouso decifrar. É estranho que as músicas que sempre cantei livremente, aos berros, acompanhando o som pelos fones do diskman, um dia foram barradas no crivo da política nacional. Parece utopia, mas muitas letras foram censuradas e só liberadas depois de 1988. 

Muita gente conhece a história da Legião, como nasceu depois da ruptura do Aborto Elétrico, como se tornou o fenômeno, muitas polêmicas envolvidas. Embora o livro também trata esse lado, me chama mais a atenção para a essência. O autor abordou cada fase de uma forma leve e descontraída fazendo com que conheçamos um pouco mais sobre a forma como a Legião atuava e como chagavam as músicas para nós. 

Mesmo perdendo a representatividade com Renato, ele não deixou de ser um poeta para mim. Cada música, cada acorde me envolve de uma maneira diferente. Talvez, como eu disse, por ser a trilha de toda uma época em minha vida, um período que eu amo colocar os discos, fechar os olhos e voltar pra lá. 

O relato da fase doente e a morte de Renato foi abordado de maneira, digamos, rápida. Nessa parte eu esperava mais. Mesmo assim, manteiga derretida que sou, me emocionei lendo os depoimentos e o pós morte. Me emociono sempre que ouço o disco A Tempestade, acho que porque quase posso sentir a dor e o sofrimento dos dias em que o álbum foi produzido e isso fica evidente na leitura. 

Minha visão sobre Renato Russo, sobre a Legião e até sobre Capital Inicial mudou bastante depois dessa leitura. Muito bem documentada, pautada em muitos fatos e quase nenhuma opinião, a biografia consegue dar uma visão clara sobre o ambiente e a construção das personas. Uma das poucas que li sem me sentir influenciada. Terminei a leitura ao som de Equilíbrio Distante, com a evidência de uma das mais lindas vozes do nosso país e com uma sensação de ter me conectado um pouco mais com meu próprio passado, conhecendo caminhos novos e com a sensação de "quero um pouco mais" dessa vibe. 

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