O Solista: a arte que imita a vida.

"Há um ano atrás eu conheci um homem que estava numa maré de azar. Eu achei que poderia ajudar. Eu não sei se ajudei. Sim, meu amigo, Sr. Ayers agora dorme dentro de casa, tem uma chave, tem uma cama... mas o estado mental e o estado geral estão precários, como no dia em que nos conhecemos. Tem gente que diz que eu o ajudei, peritos em saúde mental que dizem que o simples fato de ele ter um amigo já pode mudar a química do cérebro, melhorando a relação com o mundo... Não posso falar pelo Sr. Ayers nesse sentido. Talvez a nossa amizade o tenha ajudado, talvez não! Mas eu posso falar por mim: posso dizer que ao testemunhar a coragem do Sr. Ayers, a humildade dele, a fé no poder da arte, eu aprendi a dignidade em ser leal a algo em que se acredita e se prender ao que se gosta, acima de tudo, a acreditar, sem pestanejar, que é isso que vai levar você pra casa..."(Steve Lopez)
Poucas pessoas conseguem retratar uma história real de maneira literal e, ao mesmo tempo, cativante que nos leva a percepção da realidade mesclada com tons, quase cinzas, de fantasia. Quando pegamos um livro assim, temos a certeza de uma daquelas literaturas que nos prende do início ao fim e nos deixa ansiosos com a história, tanto pela perspectiva da realidade incutida, quanto pela adaptação feita pelo autor.
A verdadeira joia de uma história vem como uma brisa fresca no verão que não deveria estar lá. É um presente do éter. Não chegar ao poético sobre ele, mas essa é a essência de como a inspiração funciona. Steve Lopez, dos tempos em que Los Angeles lapidava arduamente seus escritores e colunistas, em busca de uma matéria para elevar seus artigos, escuta, pela primeira vez o homem, antes mesmo de o ver, em 2005. Nathaniel Anthony Ayers Junior, estava com um violino sob o queixo tocando uma bonita música nos tons agressivos de LA.
Ayers era um homem sem-teto, sem nada além de um carrinho cheio de coisas e chão sob seus pés. Lopez viu o originalmente como uma oportunidade para o seu próximo artigo. Ele não tinha ideia de quão longe ele iria ser tomado ou o quão profundamente comovido ficaria. Tudo o que sabia era que ele estava disposto a cometer o simples ato de ouvir o Sr. Ayers.
As palavras têm poder, como diz o ditado, mas o mesmo acontece com a música. Mr. Ayers foi um fornecedor de que o poder que está tão mal compreendida nos dias de hoje, possui um lado transformador para ele e, quando essa música combina com as palavras, não apenas se transforma, mas cria uma obra-prima. E nesse contexto, a partir da visão de uma simples coluna para seu jornal, Steve Lopez dá vida à obra conhecida como “O Solista”.
O Livro é uma história impressionante marcando olhar interior de Steve Lopez na vida de Ayers. Em um estilo perto de algo jornalístico nos conta a história de seu encontro com o Sr. Nathaniel Anthony Ayers Jr. Ele acredita que pode mudar a vida de Ayers oferecendo-lhe uma casa, instrumentos e ajuda médica. Ayers chegou a frequentar a Juilliard School em Nova York, como um duplo baixista, mas sofreu um colapso mental durante seu terceiro ano e foi obrigado a deixar a escola de música, na época já se mostrava um prodígio e era um dos poucos estudantes negros Juilliard naquele momento. Por alguns anos ele viveu com sua mãe em Cleveland, Ohio, onde recebeu tratamento de eletrochoque para sua doença sem sucesso. Após a morte de sua mãe em 2000, ele se mudou para Los Angeles, pensando que seu pai morava lá. Sem teto e esquizofrênico, Ayers viveu e tocou a música nas ruas.
Em 2009, o livro foi adaptado para o cinema. Jamie Fox interpreta Ayers em uma de suas atuações mais brilhante. A realidade que o ator transmite no papel chega a ser realmente comovente. Sentimo-nos arrastados pela maré da história imaginando mil e uma maneira de ajuda-lo. Robert Downey Jr. interpreta Steve Lopez. Outra performance que nos leva a paixão pelo ator que oferece uma imagem impressionante de um homem que tenta ajudar alguém por alguma compulsão invisível para fazer o certo, suportando situações adversas a fim de causar algum impacto. Lopez chega a demonstrar desespero para encontrar uma solução para o caso de Ayers. 
Essa é uma das obras sobre problemas mentais que mais recomendo. Não apenas por se tratar de uma história real, mas por lidar com ambos os lados, com personagens que levam vidas totalmente opostas contracenando o tempo todo num jogo de realismo e ficção. E mais precisamente por não mostrar um “doente” indigno e maluco, incapaz de raciocinar e tomar decisões, apesar de seu estado, mas por, principalmente, mostrar que até mesmo nós, meros “normais” temos muito o que aprender com as diferenças alheias se, simplesmente, deixarmos nossos preconceitos de lado e nos permitirmos à uma amizade sincera e sem quaisquer interesse. 

Algumas informações foram tiradas de: http://fireicemagazine.com/

Dedicado à minha amiga Michele Ribeiro.
Futura psiquiatra e amante dessa ciência.

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