Sonhos

Abro a janela para deixar que uma brisa entre. Faz calor aqui, ainda é de madrugada e há um silêncio confortável lá fora que, por hora, é interrompido apenas por sussurros da noite. Posso ver que cai suavemente alguns pingos de chuva, tenho o ímpeto de ir até lá, sentir o frescor do quase orvalho.
A rua está deserta e as formas continuam sombrias.
Por um instante sinto aquela vontade que me ascende, às vezes, de ir embora, de sentir meu espírito vagando pelos cantos, de ir para um lugar, que não sei ao certo onde, nem porque, mas é aquela vontade insana de partir, de fugir daqui por algum motivo.
Fico um bom tempo olhando pela janela vendo a chuva fina que cai inconstante, admirando os sons da primavera. Faz uma noite linda, escura, daquelas que me envolve por completo e me deixa vagante por meus pensamentos insanos.
Por algum tempo detive meu olhar na paisagem noturna, mas logo meus pensamentos me fizeram voltar para o que me despertou, naquela hora da noite, naquele silêncio moribundo. Lembrei de um sonho... um sonho tão doce, um abraço tão quente, um sorriso tão calmo... As vezes acho que uma das dádivas de ser humano é poder sonhar, sonhar com os desejos mais íntimos de nossos corações, fazer um suspiro tomar forma em nossa mente e nos remeter ao esconderijo mais profundo de nossa alma. Sonhos são uma forma estranha de exprimir nossos sentimentos e quem nunca quis viver em um sonho que atire a primeira pedra.
Em meu sonho todas as coisas estavam em seu devido lugar, nenhuma ausência, nenhuma falta. As pessoas que deveriam estar, estavam lá, única, sublime... fechei os olhos. Queria voltar!
Não exatamente para o sonho, mas para o tempo em que tudo era real. Queria voltar ao momento em que podia sentir a presença doce e calma, que tornava até a noite mais sombria em um momento agradável. Queria voltar ao momento em que eu podia olhar nos olhos, contemplar o sorriso... mas o tempo não volta e, provavelmente, aquele sonho gostoso também não. 

Poderia ficar a noite toda ali, vendo a chuva cair... poderia pedir em silêncio que jamais amanhecesse, só para que eu me detesse naquela imagem, nas lembranças que afloravam quentes por meus olhos. E a saudade é mais ardente, e mais bonita. 
Pouco a pouco o dia vai clareando, em algumas horas já haverá uma manhã cinzenta me convidando a adentra-la. a vida segue, não importa o quanto meu coração esteja partido, a vida segue e as horas passam violentamente, roubando-me o sono nas imagens daquele sonho, daquele calor que eu jamais terei de volta em meus braços. 


Meu corpo jaz no silêncio, minhas palavras vagam no esquecimento. E eu só queria que quando acordasse tudo estivesse normal, em seu devido lugar e essa solidão gritante que sufoca na garganta não passasse de um pesadelo. 
Estou perdida em meus devaneios, perdida em minha dor. Desejando acima de tudo que o tempo cicatrize as feridas que a saudade insiste em manter abertas, implorando por cada segundo que eu aprenda a conviver apenas com as lembranças que sobrevivem inquietas em minha memória. E nessas noites quentes de primavera, em que minha noite é roubada por um sonho tão lindo, eu tenha certeza que não é por aquilo que está diante dos nossos olhos que dou a minha vida, mas pelo que habita em minha alma, no mais íntimo do meu ser, que sobrevivo cada minuto, esperando que sonhos, como esses, possam fazer tudo valer a pena mais um pouco...

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