Desistir?



Não, ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar. — Caio Fernando Abreu

Eu realmente tenho estado confusa. De repente todas as formas se misturam e me levam ao recôndito mais submisso de minha alma. Tenho que pôr os pensamentos em ordem, mas tudo o que me vem à cabeça são coisas sem sentido e perdidas. Eu quero fugir! Quero mergulhar em um buraco bem fundo e só sair de lá quando tudo tiver passado. Quero me esconder dessa bagunça em um lugar onde nem eu mesma possa me encontrar com meus anseios e inseguranças. De repente, eu já não faço mais parte de mim, não sei quem eu sou. Experimento sensações como um medo intenso e um desespero quieto. Fecho os olhos para tentar expulsar isso de dentro de mim, mas na imensidão de uma noite fria, não adianta apenas fechar os olhos, já faz algum tempo que é preciso muito mais que um sonho para conseguir tirar os pés do chão. Me sinto inepta, como se nada do que eu tentasse fizesse realmente sentido.

O que está mesmo me deixando assim é o fato de eu não saber como agir. Eu olho em volta e penso que tudo o que fiz (se é que fiz alguma coisa) foi em vão. Lidar com atitudes de outra pessoa é complicado, parece que estou andando em círculos e sempre volto ao mesmo lugar, como uma pessoa incapaz de seguir. Eu tento, e tento entender os motivos, as causas, os sentimentos. Passo horas analisando as situações, mas não consigo chegar a nenhuma conclusão. Acho que é verdade quando dizem que quem está do lado de fora não pode saber realmente o que se passa na cabeça de uma pessoa. Verdade, verdade...

Mas eu me pergunto: "Será que é hora de desistir?" Eu não desisto fácil das coisas (não sei se isso é bom ou ruim), mas enquanto não esgoto todas as possibilidades eu ainda estou lá tentando (aliás, sou brasileira, não desisto nunca). Mas confesso, com uma dor incomum dentro do peito, não estou sabendo mais reconhecer se há (ou não) mais alguma possibilidade. Verdade é que estou perdendo a esperança e, quando se perde a esperança, tentar é inútil por já não se acreditar que vai dar certo. Será esse um traço de fraqueza? É pode até ser...

Fico parada perante a porta observando um sono quieto. É como se eu olhasse anjo sereno depois de uma batalha qualquer. Me vem a mente a cena, trágica, compulsiva... uma vontade de sair correndo misturada com um desejo inquieto de abraçá-lo e nunca mais soltá-lo me assalta de imediato. Sinto as lágrimas brotarem em meus olhos inundando minha alma com um medo e um amor quase incondicional. Queria tirá-lo dessa dor, queria poder dar meu coração, minha alma, meu sangue... minha vida se fosse preciso... e não é por falta de coragem, mas porque não se trata apenas de uma decisão minha, é isso que me consome...

Talvez seja hora de partir, mas quantas e quantas vezes eu não passei pela mesma situação? E me assaltava o medo da solidão atenuando o fracasso de me render ao que eu não conseguia controlar? A mente é um dos labirintos mais lindos e perigosos já inventados, podemos nos perder diante de tantas portas que se abrem e se fecham simultaneamente e os caminhos que passamos deixam de existir de imediato... é difícil conseguir voltar ao primeiro erro e recomeçar de lá... as lembranças as vezes torturam a alma da maneira mais cruel que se imagina, as chances desperdiçadas, as derrotas... tudo fazem parte de um processo que nos empurra ladeira abaixo nos impedindo de voltar ao topo, e quando olhamos para cima e não vemos ninguém é tentador apenas nos deixar cair, apenas para ver onde é realmente o fundo do poço. Dói... dói ter que desistir por não ter mais força ou por não ter mais nada que nos impulsiona a lutar, e vencer essa dor é quase... praticamente impossível... a não ser que ainda reste um fio de esperança que nos motive. Ocorre que eu ainda não sei se ele mesmo desistiu... Sinto, muita das vezes, que ele quer lutar contra isso tudo, em outras ocasiões, entretanto, preferiria se render ao desespero à vencê-lo. É inusitado, é triste... E eu não queria desistir agora, mas me sinto sem forças, sem coragem, sem motivação para continuar...

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