Tempo

Tempo...
eis tudo o que é inexplicável...

Hoje acordei com uma ansiedade fora do comum. 
Já há alguns meses, os dias amanhecem frios e escuros, mas para minha surpresa, o sol irradia pela janela... claro, intenso, insistindo para entrar e envolver-me em teu calor. É, o dia realmente acordou bonito... 
Abri a janela, deixei o vento entrar. Ainda faz um frio, mas está confortável. Vislumbro a paisagem. Bela! As águas tranquilas jorram, seguindo seu infindável curso, relatando histórias e memórias insondáveis. Todas as flores, os jardins estranhamente brindam esse momento em que a vida desperta alucinadamente. 
A primavera tem pressa de chegar... 
O dever me chama, tenho apenas poucos minutos para observar a cena. Observar, sem fazer parte dela. Não entendo como que, em apenas breves olhares em várias direções, consegui formular pensamentos e experimentar sensações tão rápido... na velocidade em que os segundos são consumidos e deixados para trás. Surpreendo-me com essa mera capacidade de imaginar, lembrar e sentir, ao mesmo tempo (ou não seria "tão" ao mesmo tempo assim) várias coisas do que já passou e algumas que estariam por vir (ou não).
Balbucio-me de incertezas...
O relógio insiste em chamar a atenção para não me fazer perder a hora. Fecho os olhos - um erro... Não mais que de repente sinto como se mãos invisíveis alardeassem entorno do meu pescoço, o ar não encontra mais o caminho dos pulmões, estou me sufocando com tudo aquilo que eu queria esquecer ou, simplesmente impedir de acontecer. Experimento o gosto urze de sangue na boca, misturada com as lágrimas que (não sei quando) começou a rolar. Essa manhã está linda de mais, mas fere os meus olhos... sinto como se o dia me desafiasse a deixá-lo passar, enquanto eu simplesmente continuo observando-o. Isso é quase um insulto...
Marcou-se o tempo e eu começo a andar pelas ruas ainda vazias. Mãos nos bolsos, uma música rolando baixo pelos fones, pensamentos atordoantes... Intento em me lembrar de quantas decisões será preciso tomar hoje, de quanto trabalho a planejar, de quantas pessoas a orientar (e suportar). A música chama minha atenção... "quando irei me permitir viver?" (ou algo assim). Eu não posso parar para refletir. As sete eu preciso marcar o ponto e deixar todos esses pensamentos para depois (mais uma vez). Preciso me focar nas realizações, naquilo que esperam de mim, sem músicas, sem poesias... é a realidade. O tempo não espera que eu resolva os meus conflitos pessoais... não há tempo para dúvidas, para medos e para decepções... 
Faço o que tenho que fazer (sou perita nisso), deixo todos os pensamentos guardados em um canto qualquer, sórdido e sombrio, da minha mente. Talvez eu até os esqueça lá por algum tempo. Mais uma vez estou aqui, com o velho sorriso enferrujado na face, sendo exatamente o que os outros querem (e precisam) que eu seja, desviando meus olhos do relógio que, por incrível que pareça, diminuiu freneticamente o ritmo de sua instância. Por ora, ainda admirando o reflexo insistente do azul do céu pela tela do meu computador. Evitando os olhares, as melodias... vivendo!
E perdendo minha vida para o tempo...

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