Utopia

O vento invade pela janela, junto com as notas das canções. Posso ouvir daqui o burburinho do movimento das pessoas e vejo o zigue-zague estonteante, com os mesmos rostos, caminhando na única rua, sem direção. Estou em meu quarto, aquele sórdido e vazio, em que num canto está assentada, sombria e vacilantemente, a solidão. Imagino a cena que já não faço parte, de repente as coisas mudam e o que sinto é o sentimento de repulsa por essas atitudes, sobrepondo o desejo de estar no meio daquelas pessoas. Eu queria me sentir alguém normal, que fecha os olhos para as circunstâncias e é capaz de se divertir, zombar da vida com sorrisos enferrujados nos lábios, mas não, essa não sou eu! E não conseguiria fingir sarcasticamente que seria isso que preencheria meu vazio.
De repente, silêncio...
Detenho-me por alguns minutos (ou seriam horas?) em meu livro, especialmente em uma frase “depois de desvendar uma ilusão de óptica, você nunca mais deixará de vê-la”. O impacto dessa frase é imediato e irreversível. Há algum tempo eu percebi que não fazia mais parte desse elenco tudo o que sempre quis foi nadar contra a corrente, na contramão da sociedade. Sim, literalmente eu sempre fui “do contra”, muitas vezes pelo simples desejo de “contrariar as estatísticas”, e todas as vezes que me vi seguindo pela direção “certa”, eu sentia esse mesmo aperto, quase lírico, em meu peito. Algo está queimando e consumindo toda razão que vem pela frente, levando àquele desespero quieto, que quase salta os olhos. Eu desejei veementemente ir ao show, eu planejei tudo, a roupa, o sapato, os acessórios, o perfume, a companhia, os assuntos... Idealizei cada detalhe, instintivamente para burlar minha obsessão, pelo improvável, enquanto a solidão continuava inerte no seu canto, me olhando com seus olhos frios e sedentos. Ela não iria tentar me impedir? Ela não deveria me agarrar pelos punhos e me dizer para não ir? Não seria essa a ordem natural das coisas e, depois eu diria simplesmente que venci? Então porque a solidão não cumpriu sua parte no acordo e me fez gritar? Porque ela continua implacável me deixando fazer exatamente o que eu quiser, permanecendo mórbida e silenciosa naquele canto?
Eu começo a engasgar com a utopia, depois de dias destilando meu veneno contra as áureas da minha vida e, por mais que eu force o sorriso, eu me lembro daquela imagem nua no ermo do meu quarto. Demoro um pouco mais diante do espelho, tentando reconhecer os olhos que vejo ali e, tudo que consigo enxergar é um traço de dor e o vazio que teima em permanecer. Observo quantas pessoas eu procurei ter por companhia essa noite e, percebo que todos não passariam de fantoches que eu iria manipular, mas nenhum deles iriam satisfazer meus anseios mais profundos. E quando eu olho a solidão amuada em seu canto, ela reflete o desespero que minha alma busca compreender, ela me faz ver que não importava que eu saísse, era pra lá que eu iria voltar, inconseqüentemente vazia, ou talvez trazendo a solidão de outra pessoa...
Eu tomo um banho frio, ainda ouvindo as músicas que dançam na brisa quente, e ainda posso sentir os sorrisos, quase sempre falsos, dos fantoches. Me desfaço e deito-me no escuro, pensando se a atitude certa seria mesmo desistir. Olho para o lado, apenas para ter certeza que a solidão estaria lá e com seu sorriso irônico ela me diz “eu sempre venço você, isso está perdendo a diversão”. E não sei se me sinto confusa, atordoada de mais para absorver a realidade dessas palavras, mas tudo o que pude dizer soou apenas como “eu não sei se ainda quero vencer você”...

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