Medo

Eu perdi o medo quando meus maiores medos se tornaram reais.
Ainda busco uma resposta dentro de mim, mas o medo foi extinto.
Ainda erro, mas não tenho mais medo de errar,
ainda choro (muito), mas não tenho medo de chorar...

Às vezes me sinto tão perdida que sinto a solidão agarrada em meu pescoço,
me sufocando,
e tudo o que eu consigo fazer é me aquietar,
porque não tenho sequer forças para debater com ela,
e quando fico lá,
imóvel,
ela afrouxa os dedos em volta da garganta e sai de fininho.

Fico observando-a descer as escadas que leva à rua vazia e escura,
enquanto os soluços invadem o quarto
(de onde eles vieram?).
Meus olhos se afogam, a mente se turva em um milhão de pensamentos
então o vejo pulando sorrateiramente a minha janela,
com um sorriso malicioso estampado na face.
Quando a solidão vai embora, vencida pelo meu próprio sarcasmo,
o desespero chega saltitando as entradas que não tive o senso de fechar.

Ao contrário da solidão, o desespero me faz gritar...
me faz quebrar coisas,
me faz chorar,
correr pelo quarto vazio...
e enquanto estou lá tentando expulsá-lo,
ele sorri...
e as risadas entoam cânticos sórdidos em minha alma,
não há respostas...
até que em um momento iluminado eu olho para aquele rosto de criança travessa,
se divertindo as minhas custas,
e começo a juntar os cacos que se espalharam pelo chão.
Geralmente é madrugada...
Ele me pergunta:
O que é que pensa que está fazendo?
e eu respondo,
fria,
calculista:
eu não tenho medo de você.
Nem sei como ele foi embora,
só sei que ele não está mais lá
e quando olho pela janela
o que vejo é a solidão, abatida, triste...
subindo os degraus da calçada,
voltando,
sem perder sua elegância...
com a maquiagem borrada em sua face,
parece que ela esteve chorando...

Ela entra suave,
se senta em um canto e murmura algo que não consigo entender...
Deixo que ela se recomponha,
e até gosto que ela esteja ali,
ao meu lado...
até que seu rosto resplandece e ela volta a apertar
veementemente os dedos em volta do meu pescoço,
tentando extrair todo o ar dos meus pulmões...
mas também não tenho medo dela,
porque sei que a solidão é incapaz de me matar.

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