Desencantos

Eu ainda me sinto bem ao ouvir aquelas canções antigas, embora a solidão dentro do peito esteja mais forte que o costume. É, passam-se os anos e eu não acostumo a "ser" sozinha, mesmo que isso já faça parte de mim. Odeio quando as cortinas se fecham e as pessoas desaparecem do outro lado e, odeio quando me sinto assim, quase despresivelmente implorando para que alguém fale comigo... mas não há ninguém aqui, só o mesmo e velho caderno rabiscado quase até o fim e as notas das antigas melodias que fazem parte da minha medíocre história. Estou cansada desta farça...
Estou cansada dos olhares incansáveis a procura de alguém ou alguma coisa que preenche esse vazio e não há... é só as mesmas notas monótonas e insípidas. E lembranças que não me deixam seguir em frente. Deitada, sem saber o que fazer, matando os minutos que corroem cada partícula de pensamento, me perco, me destruo... eu quero fugir daqui e não aguento mais. Não aguento mais repetir sempre a mesma história, não aguento mais esse silêncio... não consigo suportar o vazio de mim mesma. Lá fora está ventando...
Não é a imagem da minha janela que vejo pelos portais, mas as sombras parecem as mesmas. Eu me canso de procurar pelas respostas insondáveis, já é hora de partir... de desistir de lutar por um sonho incontido. As luzes continuam acesas, os cantos continuam sórdidos enquanto caminho sem destino, eu não quero mais ir aos lugares desabitados de minha alma, mas a dor que vem de lá é quase incontinente. Me rendo aos pensamentos, com as lágrimas mais rápidas do que a voz... De olhos fechados, inundados pelo meu desespero eu paro diante do espelho, esperando que ao abrir os olhos tudo seja diferente, e que o destino não tenha brincado tão ferozmente... mas as imagens que vejo, ao abrir os olhos, são distorcidas pelos vultos que turvam na mente.
Eu só queria fugir daqui agora... fugir desse lugar escuro, só queria fugir de mim mesma... sem saber de que lado sopram os ventos. De repente tudo está confuso e eu já não sei quem sou. Não há mais nada a fazer, quando todas as formas perdem o sentido. As flores dos jardins já não tem as mesmas cores, e ... são estradas que não levam a nada, só há lugares ermos e sem retorno. Eu preciso sair da inércia fechar os olhos para a dor e mudar de direção, preciso voltar ao lugar tranquilo, a morada dos sonhos que construí. Eu sinto falta de ser eu mesma, de voar com asas de um pássaro aguçado. Sinto falta de ser inerte a qualquer dor.
Lá fora faz um dia confortável, desses nublados e com uma garoa fria, que remete os pensamentos aos cantos mórbidos da cidade onde tudo acontece e nada muda e eu continuo sem saber... sem querer ... apenas sinto o vento frio e abotoo o casaco enquanto ando sozinha, sentindo a garoa em meus cabelos.

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