Meias Verdades

Eu participo de um fórum sobre pessoas com compulsão por mentiras e, por vezes, vejo vários relatos e depoimentos da opressão que essa doença causa. O mais intrigante é que, sei bem, quando alguém chega a procurar ajuda, é porque a coisa está realmente feia. 

Um mentiroso compulsivo é muito descreditado e muito julgado. Poucos são os que não veem essa patologia como um desvio de caráter e isso piora, e muito, a situação do paciente. 

Psiquiatricamente essa patologia é chamada de “Pseudolalia”, ou seja, é uma mentira compulsiva resultante dum longo vício de mentir. A pessoa mente por mentir, perde a noção do que é verdade ou não, convence-se das mentiras como puras verdades. A pseudolalia pode conduzir a graves distúrbios de personalidade, podendo o pseudolálico acabar por perder a sua individuação e viver num real criado imaginariamente, comportando-se duma forma difícil de contato humano e só com tratamentos profundos poderá melhorar. As pessoas perdem lenta e gradualmente a consciência da gravidade da doença que vão adquirindo, porque a sua realidade vai perdendo cada vez mais sintonia com o verdadeiro real. Por fim o vício de mentir é um ato inconsciente e perante a mais simples situação a fuga à verdade brota espontânea e como uma repetição compulsiva e criação de verdades inexistentes. 

Acredito que a maior dificuldade que alguém que tenta ajudar um pseudolálico (ou mentiroso compulsivo) enfrenta é confiar no paciente, afinal, não há como saber se o que ele está contando é mesmo verdade, sempre tem aquela pulguinha atrás da orelha... Até para os psicólogos instituir uma terapia é complicado, porque ele tem que partir do pressuposto que a pessoa realmente quer tratamento e está contando a verdade.

A grande diferença entre mentirosos compulsivos e mentirosos por desvio de caráter é que o primeiro mente sem nenhuma necessidade, mente apenas por mentir, para tornar as coisas mais empolgantes, para ganhar um status, para, de alguma forma, se tornar mais interessante até mesmo para si mesmo. Esses, em um estágio mais avançado (diagnosticado como pseudolálico), costumam acreditar nas próprias mentiras e chega certo momento que não diferenciam mais o que é real do que é invenção. Já os mentirosos por desvio de caráter mentem para conseguir algo, para se beneficiar de alguma forma, por exemplo, diz que faltou ao trabalho porque estava com o filho no hospital, sendo que na verdade passou a noite na balada... esses não possui nenhuma patologia e sim enganam as pessoas sabendo exatamente o que está fazendo... 
O problema é que a linha que separa esses dois é muito tênue... a pessoa sempre começa mentir em benefício próprio, é inevitável, mas aí vai ganhando imaginação e não consegue mais parar e nem separar a realidade daquilo que inventa. 

É muito triste ver pessoas que vivem em uma vida paralela e acaba que, os dois casos são imensamente confundidos e trazendo um julgamento desnecessário a alguém que na verdade é doente. É interessante que quem se prontifique a ajudar, sendo alguém próximo ao paciente, comece a mostrar-lhe que sabe quando ele está mentindo. Não estou dizendo para brigar, pelo contrário, digo apenas para, quando ele contar uma mentira, e você souber que realmente é mentira, ou os fatos não se encaixarem, você com muita tática e paciência, mostrar a ele que ele não está te enganando. Fingir que acredita em tudo que um pseudolálico disser e fazer vista grossa para os erros dele só dará mais espaço para que ele continue com seu vício desenfreado de mentir. 

É importante ter pessoas próximas que se dispõe a puxar o doente de volta à realidade. Esse seria o primeiro passo para incentivar a busca por um tratamento terápico (medicamentoso ou psicológico), pois com certeza ninguém cria algemas invisíveis em volta de si mesmo por vontade própria, a pessoa comete erros e de repente está se afogando nas consequências deles, presos em seus próprios vícios. Reestruturar um mentiroso compulsivo não é fácil, só o tempo e muita dedicação para conseguir resultados, paciência com as recaídas, compreensão e carinho... É disso que o mundo precisa para se libertar de suas meias verdades.

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