0

Fisioterapia

Cheguei da fisioterapia e dormi. Ah... Como é bom dormir ouvindo o som da chuva nas telhas de amianto... É um som agradável, principalmente quando as pessoas estão "atarefadas" de mais para me torturar com suas presenças. É tão bom ficar sozinha em meu quarto, vendo a chuva pelo vidro embaçado. Lembranças me invadiram pouco antes de adormecer... Fiquei imaginando quantas e quantas vezes olhei por essa mesma janela a chuva elamaçar o terreiro de terra lá fora... E as goteiras dão a impressão que a chuva está mais forte... Eu fechei os olhos e senti uma lágrima rolando em meu rosto, não sei ao certo porque (ou por quem)... São tantos sentimentos, desafetos dentro de mim que não consigo administrá-los... Não mais que de repente estou em soluços, encostada na janela fria, olhando a vida que renasce sob as águas frescas da chuva.
Nunca tinha ido a uma fisioterapeuta, me indicaram uma das melhores que o convenio podia pagar (meu convenio cobre 70% das consultas, mês que vem estou meio ferrada de tanto ir ao medico). Me deparei com uma senhora de meia idade, com um sorriso meigo e a fala tranquila, gostei dela, mas podia ver o olhar de pena sobre os óculos à meia luz... Isso me irritou e disparei com frieza "vamos logo com isso?" ela sorriu. Começou a me explicar porque eu precisava da "fisio", "o haloperidol age nas articulações. Ele adentra os ossos e "congestiona" os movimentos micro sensíveis. Por isso você perdeu o tato dos dedos das mãos e dos pés" Ela apertou minhas unhas com delicadeza e perguntou se eu estava sentindo, eu menti que sim... Ela sorriu. Massageou meus pés e me pediu para me equilibrar nas pontas dos dedos, tirar os calcanhares do chão foi como ir a outro mundo, a dor na sola do pé era quase "surda" até que o desequilíbrio me fez voltar. Olhei para a doutora com desafio, não disse nada e ela apenas fez um movimento indicando para fazer de novo. Eu disse (com uma voz de derrota) que "não posso". Olhei nos olhos dela procurando algum motivo para explodir a raiva que havia dentro de mim, mas aqueles olhos são sensíveis de mais... Ela me deu as mãos “vamos, tente de novo”... O segundo desequilíbrio me fez falar com a voz mais alta, “chega por hoje ok, quero ir agora”. O que ela disse em seguida me fez parar no ar, entre a cadeira e ficar totalmente em pé. “Até quando vai fugir das conseqüências dos teus atos?” A fúria transpassava meu rosto violentamente, eu queria gritar com ela, queria xingar palavrão queria correr dali... Levantei, soltei-me da mesa e fiquei nas pontas dos pés, não sei por quanto tempo, alguns segundos acho, mas a dor me venceu e o ódio de ver meus olhos marejados (eu me tornei uma chorona) não conseguia dizer uma palavra se quer... Tudo o que saiu da minha boca foi “são apenas alguns dedos, ninguém precisa deles”.
“Ainda temos alguns minutos, quer conversar?”... Eu não queria conversar, queria ir embora dali, da presença daquela mulher estranhamente “boa”. Ela me jogou uma bola de borracha, que acertou meu rosto, não consegui pegá-la. “Como eu imaginava, suas mãos estão sofrendo os maiores impactos, e teus reflexos estão um pouco comprometidos, vamos trabalhar isso?” Eu não conseguia entender como alguém pode ser tão calma assim “A senhora se importaria se parasse de sorrir?” ela sorriu mais ainda, não percebia que isso estava me incomodando. Olha, você virá aqui duas vezes por semana, uma hora cada visita durante trinta dias. Isso dará dezesseis horas. É tão pouco né, você não precisa me ver de mau humor, tenho certeza que esse rostinho inchado e esses olhos tristes não chegariam nem perto de como o mau humor pode me deformar. Levei um tempo pensando se ela estava me chamando de “feia” ou de mal humorada, mas dane-se... Isso não importa. “Mantenha suas mãos e pés em movimento” foi toda a instrução. Nada de remédios, de pílulas nenhuma receita... Apenas “mova-se” e isso é exatamente o que eu não estou a fim de fazer...
Depois de dormir um pouco, não estou me sentindo melhor... a sensação de vazio dentro do peito ainda consome e destrói o que resta de vivo em mim. E o dia sombrio e frio lá fora é capaz de entender exatamente o que se passa dentro de mim, porque não há como continuar em uma estrada, se não há flores no caminho para se embebedar da chuva. E dentro de mim existem apenas os escombros de um sonho que sonhei sozinha e que me leva aos horizontes desconhecidos...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

É um prazer tê-lo (a) aqui.
Obrigada pela opinião e volte sempre.